terça-feira, 1 de março de 2011

O livro

De baixo do braço. Bem apertado. Seguro como os sonhos. Estimado como a vida.
Um livro pequeno, branco, capa dura, brilhante. Folhas douradas. Em relevo uma cruz.
No livro uma crença. No braço um acreditar. Um destino, uma razão, um caminho.

6:30h e já fecha a porta de casa atrás de si. Já acordou. Já rezou. Já tomou banho. Já se vestiu. Já bebeu o copo de leite frio com duas bolachas maria (não torrada, maria original). Já rezou.

7:02h entra no comboio. Carruagem seis, metodicamente. E prega o livro aos passageiros. Fala de como foi criado o mundo, fala de anjos e demónios, fala de homens e às vezes também de mulheres. Conta histórias de animais, de pessoas, de comida, de bebida, de enfermos, de pescadores, de pastores, de milagres, de fé. Histórias de História, de acontecimentos, de factos.

Inabalável.
Indiferente à indiferença.

Não vê. Os sorrisos mascarados. Os esgares escondidos. Os olhares trocistas. As expressões reprovadoras.
Não ouve. As gargalhadas adolescentes. As tosses enganadoras. As vozes incrédulas. As conversas piedosas.
Não sente. As rasteiras discretas. Os encontrões propositados. As moedas caridosas. Os mimos misericordiosos.

12:00h, religiosamente, desembrulha a sandes de omeleta que traz no bolso do casaco e, após a oração aperitiva, ingere o pão em cinco dentadas, com dez mastigações por dentada.

16:00h, a D. Rosa da carruagem do bar tem preparado o seu chá divinal de camomila que saboreia ao ritmo de colheradas de café.

19:30h encontra-se devotamente apeado na estação mais próxima de casa.
Saboreia a sopa que a D. Ana, a vizinha, lhe deixa ao lume e regressa ao quarto para as últimas rezas do dia.